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domingo, 27 de outubro de 2013

A esfera

O olho vaga, lunático, vazio
E me engloba.
Constrange-me, me flagra
E me assola.

A esfera fria pisca
Se lambe com pestanas grossas,
Metálicas, mais que metálicas,
De chumbo
E se corta.

O olho sangra e pinga,
Goteja e chora.
Inunda-me com seu mar
Espesso, me toca, me afoga.

A bola gira rápida confunde-me e pisco.
Em volta ela desmaterializa-se
E fico vazia, lunática, fria, metálica,
Mas sinto, percebo
Que algo me olha.

(01/05/2010)

Matilda de Azevedo

terça-feira, 30 de abril de 2013

Quaresma


Apaguei todas as lembranças,
Queimei todos os documentos
E até troquei de nome.

Deixei o ventre de minha mãe
E a cidade em que vivia
(Sem olhar pra trás).

Renovei meu guarda-roupa,
Fiz cruz na boca
E não mais passei batom.

Mudei os meus cabelos,
Fiz e desfiz amizades
E meus ares e lugares
Também já não são os mesmos.

Comi do que não gostava,
Ri de muita desgraça
E bebi além da conta.

Viajei mesmo cansada
Descansei quando forçada,
E abdiquei de minhas escolhas.

Abandonei todos meus sonhos,
Tive inúmeros pesadelos
E hoje quando me olho
Não me reconheço nos espelhos.

Já não sou quem eu era
E por essa vida de quaresma,
Por íncrível que pareça,
A culpada sou eu mesma.

Matilda de Azevedo

sábado, 4 de agosto de 2012

Uva-passa


O tempo passa e me devora,
Me amassa.
Fico áspera como tuas palavras,
Amarga como tua face.
O correr dos dias asfixia meus pulmões.
Acendo um cigarro para matar o tempo,
Passar a vida.
Assisto indiferente, alheia, à vida que levo,
Relevo.
Infértil e inculta me torno.
O que me resta infelizmente,
É arrumar um gato
E me transformar na louca.

Matilda de Azevedo

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Sinais

Eu me encontrava em meio ao nada,
Estava em casa e não a reconhecia.
Agora estou mais perto
E mesmo assim nunca me senti tão longe,
Tão distante,
Tão perdida.
Não me acho em reflexos de olhos conhecidos,
Não reconheço essas faces cunhadas a tempo,
Não me reconheço.
Eu me absorvia em divagações estúpidas,
Eu, alma pequena, assaz adjetivada!
Nunca me senti tão vaga,
Nunca me senti tão nula,
Nunca me senti tão fria,
Nunca me senti...
Eu me extraviei no meio de algum caminho,
O qual nem ao menos sei aonde me conduziria,
Oxalá fora do abismo que sou eu mesma.

Matilda de Azevedo

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Praça


Corpos em trânsito,
Pensamentos estagnados,
A torrente do tempo arrastando vidas,
Imparcial, impiedosa.
No chão dessa cidade pequena
Pés são como raízes profundas...
Um baque alto rompe a calmaria vespertina,
Os pombos levantam voo em alvoroço.
No meio da praça central
Uma árvore frutífera tomba a vento.

Matilda de Azevedo

segunda-feira, 28 de março de 2011

Reflexo

Vou ao espelho como quem procura uma resposta.
Passo um batom sangue que não se limita à boca.
Essa boca, essa face que não reconheço.
A máscara do tempo deita-se sobre meu rosto.
Enxergo desesperada a minha vida,
Minha existência maltratada.
Meu corpo persiste caduco,
Pagando pela ousadia (pelo absurdo) de viver.

Matilda de Azevedo

domingo, 16 de janeiro de 2011

Tantálico

                                    Aproveite! - linha, grafite, pincel atômico e guardanapo

Vomito diamantes,
E em meio ao meu refluxo vivem os vermes,
Vivem do meu refluxo.
Estapeados constantemente por sons e riscos.

A lua fita a todos,
Como um olho lento.
A lua pisca de mês em mês.

E cá estou eu,
Estamos todos.
Vendo minhas palavras para o sustento do corpo.
Lêem minha sorte nas palmas de minhas mãos,
Linhas que rabisquei com as pontas das unhas.
E cá estamos todos,
Estou eu.

A lua fria orbita tácita,
Abutre paciente,
Espera por nossa sina.

Vomito pérolas
Para o sustento dos porcos,
Que ignorando o seu redor
Chafurdam-se na comida.


(15/05/10)
Matilda de Azevedo

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A louca

Aquela mulher de escarlate na boca
Berra.
Arranha, arranca
Com suas unhas rubras, vívidas.
Cega ela vaga,
Sem destino.
Masca com voracidade um chiclete verde,
Tão verde que machuca.
Dele suga todos os nutrientes que precisa.
O que mais me assusta
É ela nunca cuspir a goma.

Matilda de Azevedo

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Ora pro nobis

Ave Matilda.
Desbastada de graça,
Tão vazia tão gasta.
Rota e encardida.
Do riso não mais goza,
Na vida não se acha,
No tempo se perde.
Padece a esperar pelo cavalo negro
Da hora de sua morte.
Amém.

Matilda de Azevedo

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Noite

Perco-me no deleite de um drink colorido.
Mascaro minha dor com um copo de conhaque
Barato, falso.
Danço sozinha ao som de uma marcha fúnebre.
Choro, rio, grito, calo-me.
Trago um véu de fumaça maldita,
Relaxo.
Saio pelas ruas desertas, deserta.
O frio da cidade me abraça.
Meu espírito segue gélido sem rumo.
Estou só em meio de muitos,
Esquecida.
Nem minha casa me reconhece.
Caio na cama e durmo,
Por uma noite apenas.
Espero silenciosa e impaciente pelo sono eterno.

Matilda de Azevedo

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Entre Montanhas

Cidade pacata, janelas abertas
Portas destrancadas.
Uma brisa leve perambula por entre montanhas altas,
Cercados estamos num vale de sombras,
Trancados.
As pessoas arrastam-se lentas pelas ruas,
Como vermes no pedaço de carne que habitam.
Contra o céu nublado salpicado de algodões,
Um pássaro se estende ao infinito
Planando calmo ao Sol tímido.
Os vermes param e admiram-no estupefatos.

Matilda de Azevedo

domingo, 28 de novembro de 2010

Quadro

                                         Foto tirada de http://www.biocientista.com


Da janela de minha casa vejo o mundo.
Vejo sempre a mesma manga amarela,
Vistosa, suculenta, convidativa, simplesmente pronta.
Lá ela sempre esteve, sempre estará,
Constante, absoluta.
Ninguém ousa tocá-la,
Nem os pássaros,
Ainda que todos a almejem.
Hoje, porém, não a vejo.
O dia nublado bloqueia minha visão.
A janela embaçada é tudo que tenho.


(2008)


Matilda de Azevedo

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Monólito

Uma estátua de mármore,
Gigante e bela apenas,
Estética pura,
Beleza em pedra fria.
Em praça pública ela se estende,
Esguia, lânguida, esbelta.
Sua silhueta contra o poente
Manchado de tons quentes.
Os transeuntes a admiram
De longe.
Olhos atentos tentando
Capturar uma migalha de sua perfeição,
Olhos gulosos,
Invejosos olhos,
Ávidos, desejosos, quase cheios de volúpia.
Nasce o Sol, gira a Terra,
Cresce a Lua, desce a chuva
Sobre as costas desenhadas da escultura.
Passam-se os segundos,
Perde-se a juventude,
Vão-se os transeuntes,
Mas a pedra fica.


(08/09/10)

Matilda de Azevedo

domingo, 21 de novembro de 2010

Companheira de partida

Como um filete longo ela sobe,
Serpenteia,
Descrevendo figuras enigmáticas enquanto dança.
Nunca poderei decifrá-la,
Por mais que me encante.
Quente como um afago,
Pálida como uma lembrança.
Pelo ambiente ela se dilui
E me abraça.
Confunde-me com sua asfixia doce
E espera serena por uma companhia.

Matilda de Azevedo

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Reunião

Cá estamos nós jogados numa sala escura
Trancados com nós mesmos,
Com pares de olhos curiosos.
Calados, trancados numa sala,
Vazios, vazia.
Respiramos atônitos o ar que ainda nos sobra.
Alguns tombam
A sala permanece.

Matilda de Azevedo

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O jardim


As flores balançam contra o vento.
No jardim tudo parece plástico e impecável
Como sorrisos.
As formigas trilham seus destinos, labutando apáticas,
Constantes e conformadas.
As folhas caem na grama recém cortada.
De súbito o vento cessa.
As flores plásticas.
As formigas quedam.
O jardineiro recolhe flores para seu ramalhete
Sorrindo estupidamente como seu jardim.

Matilda de Azevedo

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A língua 19/05/10

Vou ao espelho como quem procura por uma resposta,
Vejo refletida uma fase amorfa,
Sem olhos ou boca,
Somente rugas.

Desenho-lhe, então, olhos grandes,
Amedrontadores,
Como luas cheias.

Em seguida, faço-lhe a boca,
Miúda,
Incógnita e muda.

Os olhos se abrem e vêem a boca,
Em instantes diminuem,
Amedrontados.

A boca se abre, se lambe
E, largamente satisfeita,
Acaba-se num sorriso.

Matilda de Azevedo
(Mike Rodrigues)

sábado, 13 de novembro de 2010

Sou muitos em mim mesmo,
e na maioria das vezes não sou eu mesmo.
Tenho logo que apresentar a todos Matilda de Azevedo,
uma mulher do alto de seus 60's, repleta de experiência de vida,
geralmente amargurada e assombrada por diversos fantasmas recorrentes em seus textos.
Acho que mais de 50% dos meus poemas recebem sua assinatura, então eu sou obrigado a fazer essa pequena apresentação.
São algumas imagens que aparecem diversas vezes nos poemas de Matilda:

- Cor vermelha (e todos os seus tons, além de objetos e imagens que levem a essa cor);
- Cores quentes, em geral;
- Cor branca e verde;
- Olho;
- Boca;
- Língua;
- Tempo;
- Lua;
- Cidade pequena e seus elementos (montanhas, rios, vales, colinas, etc.);
- Morte (beirando quase ao desejo) e sentimentos e pensamentos lúgubres;
- Nostalgia para com a infância e amargura em relação ao passado no geral;
- Visão pessimista da vida;
- Cigarro e fumaça;
- Solidão;
- Pássaro;

Outra marcação importante é que seus últimos poemas veem beirando a loucura.
Espero que gostem dela, mas tenho certeza que ela não gostará de vocês...





La Fleur Rouge

Sarcástica e cáustica sou
E te dissolvo
Nesse emaranhado confuso de horas que passam,
Tempo que voa, mas não me muda.
Reluto, muda, imóvel, imutável.
E muitos foram os que disseram:
- Sorria e contemple as rosas.
Digo venenosa, enigmática:
- Também as rosas secam, murcham e se despedaçam.

Matilda de Azevedo
(Mike Rodrigues)