sábado, 20 de maio de 2017

Meu corpo é uma pedra maciça
Talhada de grão em grão
Esculpida ao passar dos dias
Meu corpo é uma peça inteiriça
Se cai, q           a -
              u   b  r     s
                e        e


Em mil pedaços
Em tantos cacos
Que ninguém juntar poderia
Meu corpo é uma tela vazia
Desenhada de traço em branco
Conta cada marca, cada espaço
Cada gota ou mancha de tinta
Meu corpo é uma lauda vazia
Se me dobras, origami
Se me escreves, poesia

Mike Rodrigues

domingo, 30 de abril de 2017

Ruminante

Eu nunca esqueci
Eu nunca esquecerei
Não é por maldade,
Mas é que os bovinos, assim como os paquidermes, nunca esquecem
Primeiro aquela memória reverberou muito dentro da minha cabeça dura
Silenciosa, infinita e destruidora
Demorei muito para abrandá-la e colocá-la na boca
Então, com todo ócio e paciência que só os touros dispõem e conhecem,
A mastiguei e suguei dela aos poucos cada gota de sumo amargo que pude extrair,
Foi dele que me nutri todos esses anos
E, quando com muito custo, a engoli,
Percebi que ela ainda me revirava as entranhas,
Então a regurgitei, a masquei e a reenguli
Posso te dizer que gastei muito tempo para ruminá-la
E muito suco gástrico para digeri-la
Enfim, pude colocá-la em baixo dos meus cascos
Pisando e comprimindo-a
Até que se tornasse pó...
Mas eu nunca esqueci
Porque perdoar nunca foi sinônimo de esquecer
Apenas não machuca mais lembrar de você

(25 de abril de 2017)

Mike Rodrigues

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

울음소리

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá,
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá
Ah que saudades tenho
Dessa terra de outrora
Lá onde os pássaros cantam
Diferente de agora
Aqui todo pássaro é triste
Aqui todo pássaro chora


Mike Rodrigues

domingo, 9 de outubro de 2016

Desterro

Coberto por esse céu sem estrelas
Despido nesse deserto sem estradas
O silêncio desse ruído, desespero
Fusos se fundem, confundem-me
Nas noites em que não durmo
Sou animal diurno exposto nesse breu soturno
Os segundos empurram as horas
Passam-se os janeiros
Das janelas vigiam-me dez mil olhos
Todos meus atos deduram: estrangeiro


Mike Rodrigues

sábado, 1 de outubro de 2016

Sol em Libra

É outono
A Balança ensina equilíbrio
A alvura da garça embeleza o pântano
Cada gota de chuva alimenta o rio

É outono
A natureza em total harmonia
A morte das folhas nutre o solo
As noites aos poucos empurram os dias

É outono
Porque há de haver inverno
A mutação segue costumeira

Porque nenhum verão é eterno

Mike Rodrigues

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Poema de outono II

O pio macabro dos pássaros
Esfria as tardes de outono
Enquanto as cores das árvores
Ainda não esquentam a paisagem

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Poema de outono I

Céu cinza-chumbo
Clima úmido, frio
Gosto agridoce de nostalgia
A Beleza triste do quase-outono
Esvai o Tempo no cair das folhas
Aumenta a noite com o passar dos dias
O horror da existência
Ignorância, benção divina
Alienação servindo de resiliência
A vida é um caótico vazio
A morte uma plena inércia