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sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Poema de outono III

Veio o outono
O triste e belo frio
A vida com menos brio
E seu ritmo monótono
O desfolhar das árvores
O uivo-agouro do vento
O fluir cada vez mais lento
E o desbotar das cores.

Mike Rodrigues

sábado, 20 de maio de 2017

Meu corpo é uma pedra maciça
Talhada de grão em grão
Esculpida ao passar dos dias
Meu corpo é uma peça inteiriça
Se cai, q           a -
              u   b  r     s
                e        e


Em mil pedaços
Em tantos cacos
Que ninguém juntar poderia
Meu corpo é uma tela vazia
Desenhada de traço em traço
Conta cada marca, cada espaço
Cada gota ou mancha de tinta
Meu corpo é uma lauda vazia
Se me dobras, origami
Se me escreves, poesia

Mike Rodrigues

domingo, 30 de abril de 2017

Ruminante

Eu nunca esqueci
Eu nunca esquecerei
Não é por maldade,
Mas é que os bovinos, assim como os paquidermes, nunca esquecem
Primeiro aquela memória reverberou muito dentro da minha cabeça dura
Silenciosa, infinita e destruidora
Demorei muito para abrandá-la e colocá-la na boca
Então, com todo ócio e paciência que só os touros dispõem e conhecem,
A mastiguei e suguei dela aos poucos cada gota de sumo amargo que pude extrair,
Foi dele que me nutri todos esses anos
E, quando com muito custo, a engoli,
Percebi que ela ainda me revirava as entranhas,
Então a regurgitei, a masquei e a reenguli
Posso te dizer que gastei muito tempo para ruminá-la
E muito suco gástrico para digeri-la
Enfim, pude colocá-la em baixo dos meus cascos
Pisando e comprimindo-a
Até que se tornasse pó...
Mas eu nunca esqueci
Porque perdoar nunca foi sinônimo de esquecer
Apenas não machuca mais lembrar de você

(25 de abril de 2017)

Mike Rodrigues

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

울음소리

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá,
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá
Ah que saudades tenho
Dessa terra de outrora
Lá onde os pássaros cantam
Diferente de agora
Aqui todo pássaro é triste
Aqui todo pássaro chora


Mike Rodrigues

domingo, 9 de outubro de 2016

Desterro

Coberto por esse céu sem estrelas
Despido nesse deserto sem estradas
O silêncio desse ruído, desespero
Fusos se fundem, confundem-me
Nas noites em que não durmo
Sou animal diurno exposto nesse breu soturno
Os segundos empurram as horas
Passam-se os janeiros
Das janelas vigiam-me dez mil olhos
Todos meus atos deduram: estrangeiro


Mike Rodrigues

sábado, 1 de outubro de 2016

Sol em Libra

É outono
A Balança ensina equilíbrio
A alvura da garça embeleza o pântano
Cada gota de chuva alimenta o rio

É outono
A natureza em total harmonia
A morte das folhas nutre o solo
As noites aos poucos empurram os dias

É outono
Porque há de haver inverno
A mutação segue costumeira

Porque nenhum verão é eterno

Mike Rodrigues

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Poema de outono II

O pio macabro dos pássaros
Esfria as tardes de outono
Enquanto as cores das árvores
Ainda não esquentam a paisagem

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Poema de outono I

Céu cinza-chumbo
Clima úmido, frio
Gosto agridoce de nostalgia
A Beleza triste do quase-outono
Esvai o Tempo no cair das folhas
Aumenta a noite com o passar dos dias
O horror da existência
Ignorância, benção divina
Alienação servindo de resiliência
A vida é um caótico vazio
A morte uma plena inércia

terça-feira, 4 de agosto de 2015

지하철

As pessoas viajam mudas
O trem passa e as leva
Parecem com pressa
Paradas, lentamente arrastadas
Homens em seus ternos
Mulheres elegantemente maquiadas
O metrô se renova a cada parada
Mais do mesmo, mesmo do nada
Alguns vão sentados, outros em pé
Soldados à estrutura metálica
Esperam seus destinos,
A estação derradeira,
Convergência inevitável
Dessa fria linha férrea.

(03/08/15)

Mike Rodrigues

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Möbius

Nasci atrasado
com excesso de tempo
e falta de espaço
preso num perpétuo laço
sinto-me atado
tal qual um inseto
nessa fita infindável
ando sempre cansado
com saudades do futuro
no encalço o passado
o que há de errado?
com essas fronteiras
com esses embaraços
cercado pelo nada
coagido por todos lados

Mike Rodrigues

terça-feira, 30 de junho de 2015

Isometria

Campo aberto
Caixa fechada
Faixada de aço
Mormaço
O céu derrete lentamente
Cobrindo nossas cabeças
Fundindo nossas mentes
Cansaço
Barulho
As engrenagens gritam
As pessoas se silenciam
Trânsito intenso
Máximo proveito
De tempo e espaço
Pressão constante
Apertando os laços
Um belo embrulho
De um lado orgulho
Do outro fracasso
Um cubo inteiro
Feito de mil pedaços
Eterna caminhada

Cada dia é como um passo.

(27-04-15)

Mike Rodrigues

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Âncora

Desamarrei de teus pés meus cabelos
Desatei os nós e os zelos
Deixei-te livre a flutuar
Ao sabor da maré alta
Sobre a luz da Lua cheia
Soltei-te tal qual sereia
Joguei-te de novo ao mar
E essa ponte de areia
Que construí para além-amar
Que desmorona em maré cheia
Que eu sísmico a remontar?
Assisto enquanto andas
Pra longe, em direção às ondas
Deito na praia a choramar?
Ou faço pra Yemanjá mandinga
Que ela te traga ainda

De volta pro meu amor restinga?

Mike Rodrigues

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

秘密

Sem rodeios, devaneios, demências demasiadas

Entrelinhas seriam apenas espaços esparsos

Guardados no branco entre linhas

Runas, ruínas, línguas mortas

Escritas estranhas

Desenhos

Ocos

Mike Rodrigues

domingo, 17 de agosto de 2014

강가에서 나를 찾다

밤으로 사라지는 강은
마치 시간처럼 계속 흐른다
강가에서 쓸린 모래는
조금씩 모래 시계가 된다

암흑으로 사라지는 강은
산에서 녹은 눈이 아닐까?
심장에서 녹아버린 차가움도
이제는 흐르는 눈물이 된다

나를 찾아 강가로 가지만
달아나는 강은 공허로 사라진다
나의 눈물도 강이 되면
나는 나를 찾을 있을까?

2014年 8 15

Mike Rodrigues


(교정: 권혁범)

sábado, 28 de junho de 2014

날씨에 대해서

우리의 사랑은
날씨에 연결되어있다
너를 그리워할
하늘이 흐리겠다
내가 우는 경우
확실히 비도 오겠다
혹시 우리의 사랑은
비를 먹고살아올까?


Mike Rodrigues

sexta-feira, 27 de junho de 2014

熱心 (Ardor)

S'eu me queimo em seu fogo
Me derreto em abraço
Me estico e contorço
Em volta de seu torso
Viro seu casaco.


Mike Rodrigues

domingo, 15 de junho de 2014

Chover no molhado

Acho que seu amor
Ao tempo está ligado
Sentir saudades suas
É certeza de dia nublado
Se eu choro, chove
Que coisa maluca
Será que nosso amor
Se nutre de chuva?
Mas se você aparece,
Seu sorriso tão aguardado,
É auspício que tenho
De dia ensolarado.

Mike Rodrigues

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Poema inspirado por “Nenhuma Resposta” de Hugo Lima
Prosseguimos ambos sem respostas, mas com poesia de sobra

Já não sei te distinguir de mim
O limite entre teu corpo e tua ausência
O vazio de tua presença
Onde começa o teu fim

Reviro os bolsos do avesso
Revisito endereços
Procurando a tua essência
Pelo não e pelo sim

Às vezes te acho em minha fome
Mas tu trocas de nome
Ao abrir da geladeira

Às vezes te penso em meus cabelos
E com água fria te calo
Iludo-me estar a salvo
Enquanto desces pelo ralo


Mike Rodrigues

terça-feira, 22 de abril de 2014

Azul incolor

Sinto a comida ora insípida
(Ou nem mesmo sinto fome)
Ora com gosto de cinzas
Cinza-chumbo
Como minhas pernas
E ora nem mesmo as sinto
Ou talvez nunca tive minhas próprias
A flutuar no éter
E ora sob a gravidade de mil planetas
Ou pior, sobre o peso de minha própria existência.

Há dias nos quais nem me banho
E outros nos quais abrasono,
Até a pele em brasa,
Essa sujeira que a água não tira da pele
Pior que pele de asno, pois vazia por dentro
Ironicamente menor que sete palmos
Para que eu pudesse esperar toda a vida
(E por toda a eternidade)
Em pé
Por algo que, quiçá, nem mesmo existe.

Mike Rodrigues