domingo, 22 de setembro de 2013

Caso de polícia

O carro de polícia chegou gritando o silêncio pra fora das ruas
Com luzes em rodopio em toque de recolher pra quem deve
Ou pra quem omite
O corpo dele estava no chão frio
Como um clichê de livro inglês
Como uma marionete em posição de Kama Sutra
Nu, como veio ao mundo
Modelito escolhido para também deixá-lo?
Os mortos não falam
E não possuem caixas pretas
Deixou seus segredos guardados nos corações de poucos amigos
Deixou seus pertences sem valor pra quem quisesse brigar por eles
Deixou seus poemas pros filhos e netos de outros...
Médicos legistas e inquéritos lentos arrastados por incontáveis decaimentos atômicos
Causa mortis: asfixia poética!

(20/09/13)

Mike Rodrigues

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

だるま

                                           Fonte: http://instagram.com/p/eerCw3nNOZ/


An egg silhouetted against the window
As red as the big circle outside
Covered in endless seconds and dust
Only loneliness stands by its side

Silent figurine, to where would you run?
When you can’t even go to sleep
Eyes wide open against your own will
Time atrophying body but not dreams

Peaceful warrior, during meditation
Did you see this coming irony?
I was the one that gave you your eyes
But you were the one that made me see
Putting an end in this long karma
By giving me a kiss in my eyelids.

Mike Rodrigues

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A fábrica

                                                                Foto por: Mike Rodrigues

Esse prédio surge como uma agulha
A costurar o chão com concreto e aço
Nessa caixa, meias conservadoras
Deslizam por mil esteiras
Há um ciclo eterno
Entre robos e máquinas
O tempo escorre
Transformando-se em cifras,
Mas as horas paradoxalmente estagnadas
Esse prédio impressiona
Com suas paredes demasiadamente quadradas
Fabricando nuvens com fumaça


Mike Rodrigues

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Convergência

O filho de Maria poderia não ter nascido
Nem como acidente
Mesmo não sendo de pai de papel passado
E nunca seria de Maria
O filho de Maria poderia ter sido dado
Como se dá um filhote de uma grande ninhada
E nunca seria desta Maria, mas de outra
O filho de Maria poderia ter sido analfabeto
De pai e mãe
E de irmão
E de várias gerações que ainda virão
E nunca nem saberia escrever "Maria"
O filho de Maria poderia ter morrido de fome
Ou de bala perdida
Ou ter se perdido
O filho de Maria poderia ter morrido aquele dia
Se não fosse por Maria puxá-lo pelo braço
Ou depois daqueles seis dias de cama
Poderia não mais ter sido embaixo de seis palmos de terra
O filho de Maria poderia ter morrido provinciano
Uma pedra em estado de repouso
Um peso morto em conforto absoluto
O avião do filho de Maria poderia ter caído
Como cai uma pedra que tenta ser pássaro
E nunca nem saberia dizer “Mary”
O filho de Maria poderia nunca ter retornado
O filho de Maria poderia ter arrumado um emprego
E nunca ter virado universitário
Poderia ter dormido até mais tarde
Ao invés de sonhar acordado
O filho de Maria poderia nunca sequer ter tentado
Ter-se-ia conformado?
O filho de Maria poderia ter se atrasado
Poderia ter tido medo
E ter desistido
O avião do filho de Maria poderia ter caído
Como caíram muitos a sua direita
E outros tantos ao seu lado
O filho de Maria poderia ter ficado calado
Poderia nunca ter saído de casa
Ou tomado um café
Ou menos ainda ter tomado outro
Poderia ter dito NÃO
Ou tido SIM no momento errado
O filho de Maria poderia nunca ter amado.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Chuva

“Rainy days and Mondays always get me down”


Às vezes o céu chora tanto
Que até lava a luz do dia
Fica tudo escuro
Que até desbota as cores das coisas
Fica tudo cinza
Que até apaga o calor da gente
Fica tudo frio
Aí a gente chove tanto por dentro
Que dá até vontade de chover por fora.

Mike Rodrigues

terça-feira, 25 de junho de 2013

Before and after

                                                               You + Me = We - cartolina e tinta


I was lost before you came
Before you came I wasn’t me
But if I was, then I don’t know
Maybe I just couldn’t see
See what was already there
Waiting for me somehow, somewhere
Waiting for me to let it be
Waiting for me to set it free

I got lost after you came
After you came I’m not myself
But if I am I can’t compare
Maybe I am just somebody else
Somebody that was already there
Waiting for someone else to care
Waiting to just feel complete
To finally make my heart beat.


Mike Rodrigues

sábado, 22 de junho de 2013

Mama

Mama, eu preparo teu enterro
Debaixo do véu escuro
De um ponto claro,
Na garganta profunda
Dum girassol enegrecido
Ruído em seu próprio buraco negro.

Mama, não chore contas,
Mais pérolas prateadas,
E adicione mais grãos ao céu
Acima de teu próprio preparo.

(18/06/11)


Yuri Mushrock