quarta-feira, 17 de novembro de 2010

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terça-feira
um dia a mais
um dia a menos.




Âmago (9)       29/05/10


O frio de uma noite aveludada eletrocuta minha pele.
Sinto em toques a vida pulsante nas coisas que toco
E que me tocam.
Meus pés descalços lêem as histórias deixadas na terra.
Escuto com todo meu corpo os sons de seres cheios de vida,
Meus olhos se inundam de cores fluorescentes.
Quero abraçar o mundo e beber-lhe os oceanos,
Alimentar-me das nebulosas que me circundam,
Morder os planetas que se oferecem como maçãs suculentas.
Estou perto do meu inconsciente mais abissal,
Dentro de mim mesmo.

Yuri Mushrock
(Mike Rodrigues)

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A língua 19/05/10

Vou ao espelho como quem procura por uma resposta,
Vejo refletida uma fase amorfa,
Sem olhos ou boca,
Somente rugas.

Desenho-lhe, então, olhos grandes,
Amedrontadores,
Como luas cheias.

Em seguida, faço-lhe a boca,
Miúda,
Incógnita e muda.

Os olhos se abrem e vêem a boca,
Em instantes diminuem,
Amedrontados.

A boca se abre, se lambe
E, largamente satisfeita,
Acaba-se num sorriso.

Matilda de Azevedo
(Mike Rodrigues)

domingo, 14 de novembro de 2010

Insônia     04/07/10

No silêncio da madruga repouso meus olhos,
minha cabeça,
em seu ventre gelado.
Estou a espiar a vida que cochila,
espreitando por dentre segundos lerdos,
que a todos conduzem enfim ao dia.
Há uivar de cachorros vadios,
há vômitos de bêbados
e há beijos de amantes,
todos misturados como tinta
em uma pintura bonita,
mas obscenamente verdadeira.

Mike Rodrigues
A última (por enquanto), porém não menos importante apresentação a ser feita é a de Yuri Mushrock. Um "dude" bem mais hedonista, numa vibe mais "zen", mas ao mesmo tempo bem mais ativista e com sentimentos contrários ao vazio que o ser humano se tornou. São imagens que aparecem com frequência em sua poesia:

- Aversão à cidade grande e aos seus habitantes alienados;
- Sentimento de fuga;
- Admiração pelo exótico, diferente, estrangeiro;
- Convites para se entregar ao novo e aos prazeres da vida;
- Citações do cosmos, dos planetas, do Universo;
- Aversão ao rotineiro e aos sentimentos "plásticos";
- Mergulho no próprio ego;
- Mas ao mesmo tempo aceitação que essa visão "otimista e idealista" não passa de simples sonho.

Bom, acho que o Yuri é uma verdadeira figura, muito mais receptivo do que a Matilda. Nesse momento, ambos dormem em lugares desconhecidos, esperando por serem acordados. Matilda está vivendo seus piores pesadelos, porém Yuri, ele está calmo a ressonar em alguma relva verde protegido do caos cotidiano. Espero que gostem dele.



Cosmos    19/05/10

Vem comigo nesse foguete.
Ouça! Já comeram a contagem regressiva.
Não tenhas medo das alturas,
Nem dos aliens que as habitam.
Piores são os monstros de nossos mundos.
Apenas feche os olhos e acredita
Que há muito mais vida lá fora,
Em algum lugar distante, talvez.
Se vieres comigo, prometo
Vestir-te de caldas de cometas
E dar-te por brincos os anéis de Saturno.
Pois todos nós voltamos ao pó,
Mas alguns, de estrelas.


Yuri Mushrock
(Mike Rodrigues)

sábado, 13 de novembro de 2010

Sou muitos em mim mesmo,
e na maioria das vezes não sou eu mesmo.
Tenho logo que apresentar a todos Matilda de Azevedo,
uma mulher do alto de seus 60's, repleta de experiência de vida,
geralmente amargurada e assombrada por diversos fantasmas recorrentes em seus textos.
Acho que mais de 50% dos meus poemas recebem sua assinatura, então eu sou obrigado a fazer essa pequena apresentação.
São algumas imagens que aparecem diversas vezes nos poemas de Matilda:

- Cor vermelha (e todos os seus tons, além de objetos e imagens que levem a essa cor);
- Cores quentes, em geral;
- Cor branca e verde;
- Olho;
- Boca;
- Língua;
- Tempo;
- Lua;
- Cidade pequena e seus elementos (montanhas, rios, vales, colinas, etc.);
- Morte (beirando quase ao desejo) e sentimentos e pensamentos lúgubres;
- Nostalgia para com a infância e amargura em relação ao passado no geral;
- Visão pessimista da vida;
- Cigarro e fumaça;
- Solidão;
- Pássaro;

Outra marcação importante é que seus últimos poemas veem beirando a loucura.
Espero que gostem dela, mas tenho certeza que ela não gostará de vocês...





La Fleur Rouge

Sarcástica e cáustica sou
E te dissolvo
Nesse emaranhado confuso de horas que passam,
Tempo que voa, mas não me muda.
Reluto, muda, imóvel, imutável.
E muitos foram os que disseram:
- Sorria e contemple as rosas.
Digo venenosa, enigmática:
- Também as rosas secam, murcham e se despedaçam.

Matilda de Azevedo
(Mike Rodrigues)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Aqui vai uma trilogia bem intensa, acho que uns dos poemas mais fortes que tenho, estão bem novos e fazem parte de emoções  que vivi nesses últimos dois meses


Conversa   17/09/10


Meus olhos ardem frente à violência de tua face,
meus ouvidos calejados por tua língua.
Há demasiada sinceridade em tuas palavras,
chega a ser obsceno em um mundo de mentiras,
denunciar-te-ão a uma corte de atores.
Rápido, finja tuas emoções antes que te descubram...
Há no mundo uma fina trama de inércias,
cravejada de belíssimos diamantes de conveniências.
Não vês que estais a rasgá-la,
expondo a todos toda a vergonha de nossas nudezas?
Ah! Inocente visionário, serás engolido de um só trago,
por gargantas fracas e rocas de tantas calúnias.
Precisas aprender a mascarar-te de incertezas,
iluda-nos ou devorar-te-emos.





Protege-nous   25/09/10


Dobre tuas palavras como pílulas,
Coloque-as em baixo de tuas línguas,
Todas elas.
Esconda-as te tua garganta,
Não as deixe chegar a tuas entranhas.
Prive-nos os ouvidos de teus fonemas.
Não nos acorde de nossos piores pesadelos,
Deixe-nos de olhos fechados,
De respiração suspendida.
Seguiremos, desavisados, nossas rotinas,
Simplesmente existindo,
Tomando nossas doses diárias
De nossas vidas,
Placebos.


Listen   11/11/10

Cala-te! Não mais quero ouvir tua voz,
Pois conheço teus lábios mais que aqueles
Que antes já os beijaram.
Sei de cor suas artimanhas,
Suas covas rasas e lugares comuns.
Cansado estou de tuas línguas,
De tuas palavras,
Sinto-me aprisionado por sua conversa
Sem olhos, bocas ou ouvidos.
Vá derramar em outrem
Tuas paixões instantâneas,
Teus corpos usados,
Tuas atitudes desenfreadas,
Tuas vidas vazias e baratas,
Tuas tentativas de preenchê-las.
Não mais suporto histórias
E essa cobrança implícita
Que te escute estático,
Como pedra anestésica.
Preciso de espaço,
Espaço para crescer e derrubar-te
Quando estiver me expandindo



Mike Rodrigues
                                                                                                                                Foto por: João Füzessy

Cinemática (04/11/10)

Novamente bolhas que sobem à luz do cristal,
inebriantes e embriagantes
como teus olhos e teus lábios.
O som difundindo-se pelo ambiente,
tão denso que nos abraça,
assim como se abraçam, se enlaçam,
nossas almas.
A chuva cai forte
a celebrar a vida lá fora.
O suor pinga quente
a celebrar a vida cá dentro.
Não há mundo senão os nossos mundos,
o nosso mundo.
Tempo não há senão
o instante ao qual nos prendemos,
nossos segundos congelados em eternidade.
Meus pensamentos se confundem
tentando capturar o momento em fotografias.
Meus sentimentos me intoxicam,
afogados em adrenalina e serotonina.
Provocaste-me o ápice de euforia:
vontade insana de fazer poesia.

Mike Rodrigues