sábado, 9 de novembro de 2013

Morfema

Ah quem me dera voltar
Para os braços de Morfeu
Na terra em que vivíamos
Vivíamos do que colhíamos
Ele a mim amava
E quem o amava era eu
Os mantos que  me cobria
Eram mantos de alforria
A língua a qual falava
Era a canção que me ninava
E quando eu dormia
Enquanto eu sonhava
Era só nele em que pensava
Mesmo o vendo todo dia
Na  terra da morfina
Viver de pura dopamina
Bebendo dos seus lábios
Um néctar do próprio deus
Ah noite escura
Chuvosa e fria
Minha eterna companhia
Que será dele e eu?
Se chovesse como eu chovo
Até os dias que são longos
Passariam por penúria
Se chovesse como eu chovo
Digo certo, com desgosto
Seria uma eterna lamúria
Ah noite fria
Que chora e dorme
Porque também não durmo eu?
Que será dele sem mim?
Que será de meu Morfeu?
Ah nostalgia eterna
Querer voltar pr'aquela terra
E dormir nos braços seus
E essa noite que me é eterna
Essa panterína fera
Indomável, insopitável
Quer roubar os sonhos meus
Embala-me com seus encantos
Oh Morfeu eu vos rogo em pranto
Daí-me um pouco do seu ópio
Adormece o choro meu.

Yuri Mushrock

domingo, 27 de outubro de 2013

A esfera

O olho vaga, lunático, vazio
E me engloba.
Constrange-me, me flagra
E me assola.

A esfera fria pisca
Se lambe com pestanas grossas,
Metálicas, mais que metálicas,
De chumbo
E se corta.

O olho sangra e pinga,
Goteja e chora.
Inunda-me com seu mar
Espesso, me toca, me afoga.

A bola gira rápida confunde-me e pisco.
Em volta ela desmaterializa-se
E fico vazia, lunática, fria, metálica,
Mas sinto, percebo
Que algo me olha.

(01/05/2010)

Matilda de Azevedo

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Nihilo

Tua falta é excesso nesse momento
Tua ausência por fora
Me é vazio por dentro
Saudade que me segue passo por passo
Cada vez mais minguante
Cada vez mais escasso
O silêncio que preenche esse vácuo
Um lapso no tempo
Um buraco no espaço
Lembrança que me mantém acordado
A atormentar-me o futuro
A corroer-me o passado
Um frio que me percorre a coluna
Esse hiato infinito
Essa eterna lacuna
Abstinência que me deixa dopado
Tua falta é excesso
Mais que demasiado

Mike Rodrigues

sábado, 19 de outubro de 2013

Enquanto

“Eu chovo
Sobre o seu cabelo pelo seu itinerário
Sou eu o seu paradeiro
Em uns versos que eu escrevo
Depois rasgo”
Uns Versos – Adrianna Calcanhoto

"E o meu lugar é esse
Ao lado seu, no corpo inteiro
Dou o meu lugar pois o seu lugar
É o meu amor primeiro
O dia e a noite as quatro estações"
Dois Rios - Skank

Basta que chova um pouco
Para que em mim chova-se muito
E essa língua que sempre foi minha
Grita em mim para ser tua
O sol que te mandei
Acorda-te aos poucos a carne nua
Abre-te os olhos para manhãs frias
Desperta-te para essa espera crua
E os anos que nos separam?
Parecem mínimos diante desse fuso
Esse tempo daqui pra frente
Só faz meu ser ser mais confuso
Nessa trama de incertezas
Pareço cego, surdo e mudo
O vazio que há por dentro
Triste distancia que se arrasta
É mais que metros
Inteiros mundos
Esse meu, enquanto resta
E esse seu que é meu futuro

Mike Rodrigues

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Sódio

(02/04/12)

O silêncio se construiu de tal maneira
Que quase é possível cortá-lo à faca
Assim como eu me reparto
Facilmente sob sua afiada navalha
E minha nua carne branca
Sob essa luz amarela e fraca
Vai se tornando mais fosca
Pouco a pouco menos pálida
Meu coração se desmancha igualmente
Toda vez que em contato com lágrima

Mike Rodrigues

domingo, 22 de setembro de 2013

Caso de polícia

O carro de polícia chegou gritando o silêncio pra fora das ruas
Com luzes em rodopio em toque de recolher pra quem deve
Ou pra quem omite
O corpo dele estava no chão frio
Como um clichê de livro inglês
Como uma marionete em posição de Kama Sutra
Nu, como veio ao mundo
Modelito escolhido para também deixá-lo?
Os mortos não falam
E não possuem caixas pretas
Deixou seus segredos guardados nos corações de poucos amigos
Deixou seus pertences sem valor pra quem quisesse brigar por eles
Deixou seus poemas pros filhos e netos de outros...
Médicos legistas e inquéritos lentos arrastados por incontáveis decaimentos atômicos
Causa mortis: asfixia poética!

(20/09/13)

Mike Rodrigues

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

だるま

                                           Fonte: http://instagram.com/p/eerCw3nNOZ/


An egg silhouetted against the window
As red as the big circle outside
Covered in endless seconds and dust
Only loneliness stands by its side

Silent figurine, to where would you run?
When you can’t even go to sleep
Eyes wide open against your own will
Time atrophying body but not dreams

Peaceful warrior, during meditation
Did you see this coming irony?
I was the one that gave you your eyes
But you were the one that made me see
Putting an end in this long karma
By giving me a kiss in my eyelids.

Mike Rodrigues