segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

*-*

Há dias em qu’a gente quer virar estrela
Laçar calda de cometa
E subir até não poder mais
Brilhar lá no alto, sozinho
Sem mais ninguém no caminho
No infinito espaço só ter paz

Há dias em qu’a gente quer ser criança
Voltar a algumas lembranças
Comer doce e não almoçar
Dançar música bobinha
De sabão fazer bolhinhas
E com o futuro não se preocupar

Há dias em qu’a gente não quer sair da cama
A preguiça o corpo comanda
Vontade nenhuma de se levantar
Lavar o rosto ou enfrentar a vida
Só ficar quietinho, indulgência indevida
E não se mexer até edredom virar

Mike Rodrigues

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O monstro

Hoje, um daqueles dias
inundado por hormônios
ou demônios
um banho de água fria
ou uma desculpa
uma sala vazia
músculos, terminações nervosas, saliva
imagens ou miragens
sinapses em engarrafamento, neurônios
adrenalina, serotonina, dopamina, endorfina...
prazer paliativo
fraca morfina
mero sedativo.

Mike Rodrigues

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

RelatIonshiP



Poemas são assim,
Belos e intensos,
Hipnotizantes.
A gente lê e se confunde,
Não sabe separar da realidade,
Se deixar levar pelo romance.
E são tantos poemas que
Às vezes eu me esqueço
Se neles sou personagem
Ou se sou eu que os escrevo.
Mas sempre chega-se à ultima estrofe,
Sempre há o verso derradeiro
E então o próximo poema ou poesia,
Até o poeta não é mais o mesmo.
Talvez eu esteja apenas
Me perdendo em devaneios,
Só espero que me entendam
Pois cansei de falar em grego.

Mike Rodrigues

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Pragmático


Cansei de metáforas
de entrelinhas
de eufemismos
Quero mais é ser explícito
como alguém que mata a sede
que mata a fome
que treme de frio
Explícito como a dor
como criança comendo doce
como um parto
como um medo
Explícito como sexo
como um orgasmo
pornograficamente explícito
Explícito como quem ama
estúpido como quem ama.

Mike Rodrigues

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Anteros

Tu, oh anjo caído
Me persegues como a uma caça
Tu me atiça, me abrasa
Facilmente me hipnotiza,
Me prende, me laça.
Tuas carnes eu desejo,
Esse sentimento que me alucina,
Nelas deitar-me-ia
E voaria com tuas asas.
Tu, oh grega escultura
Deixaste-me à beira de algo absurdo
No limiar entre perder o juízo
E entregar-me a loucuras
Agora vivo à espera de Hermes
E tuas mensagens as guardo comigo
À noite miro sempre o negrume absoluto
Imaginando que talvez
Orfeu te traga consigo.

Mike Rodrigues

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A cidade


À noite as vias de ida são como veias
Em hemorragia
As pessoas fogem de algo invisível
As pessoas são quase invisíveis
No tráfego dessa cidade eu me sinto
Como numa artéria entupida
Como se eu fosse o veneno
Como se não houvesse saída
Às vezes a frieza urbana se confunde
Com algum ar vindo de humanos
Às vezes esse concreto armado
Me parece uma mentira programada
Um cenário
As almas flutuam lentamente
Em direção ao nada
Tênue é a linha entre a vida e a morte
Negra, estéril e gélida
É a madrugada

Mike Rodrigues

domingo, 11 de novembro de 2012

Subterrâneo


Me perco por essas linhas subterrâneas
Enquanto as horas passam
Esse emaranhado confuso
Labirinto de aço
E a cada segundo
A cada metro que viajo
Não sei se mais me confunde o tempo
Não sei se mais me confunde o espaço
Ou se mais me confundo
Ou se mais me fundo
Com esse escuro
Com esse vácuo
Com esses decaimentos de átomos
Esses caminhos são múltiplos
E não sei o que trazem,
Ou a que(m) me levam
Ou o que faço
Talvez levem-me ao meu destino
Ou somente sejam estradas
Por onde eu fuja do meu passado

Mike Rodrigues