sábado, 10 de novembro de 2012

Hematoma


Essa linha roxa
É como uma veia
Adrenalina por ela bombeada
Esta bifurca
Como uma língua viperina
Extremidades demasiadamente
Afastadas
É como uma corda
Que me enforca
Que me amarra
Que me ata
Essa linha: roxa
E eu: carne branca,
Até pálida
Cada vez mais carne
Cada vez mais pálida
Cada vez mais nada.

Mike Rodrigues

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A caneta é o pau do poeta



“Meu pai meu pau
minha mão minha mãe”
Minha Meu - Arnaldo Antunes

O poeta nato
É poeta nu
O poeta é tato
O poeta e sua tattoo
A tattoo do poeta
É perna é pele:
A perna do poeta
Entre seu e seu pau.
O desse poeta é como seu pau
Há mão no pau do poeta
E no seu
Há língua
E no seu pau
E na sua língua
E em outra língua
Só não ainda na do
Mas deixe estar...
letras e anatomia,
Sempre fora seu forte.

Mike Rodrigues

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

The boy from Seoul


Eu gosto quando me ata
Me abraça, me enlaça
Eu gosto do teu amarelo, verde e azul
Faz-me lembrar minha pátria
Sinto-me seguro em tuas cores
Em tuas carnes
Em teus afagos e amores
Gosto de tua língua
Na minha língua
Nessa língua
Que não sei se é minha
Ou a sua
Ou a nossa
Felicidade tem gosto de acelga
Mas com certeza
Soa como bossa.

Mike Rodrigues

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Toranja


Minha casca ácida
Protege-me tal escudo
Tente descascar-me,
Chegar a meu cerne, meu sumo.
Sou esfera, ser vivo, sou fruto
Não basta que me enxergue
É preciso consumo.
Não basta que adivinhe
Em mim interior de suco ou seco
É preciso nudez
Depois do estranhamento.
Minha casca imperfeita
Dentro da qual a seiva pulsa
Guarda minhas entranhas rubras
Gera fascínio e repulsa.
Sou uma toranja
E sangro aos poucos pela tampa
Sou Isaías de boca miúda
E a tampo com um pano branco.

(16/03/12)

Mike Rodrigues

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Lunático


Sou lunar;
Às vezes minguante,
Vou desfalecendo,
Me dissolvendo pela noite,
Mergulhando em mim mesmo
Absorto em segredos,
Ideias e pensamentos.
Então resurjo novo
Em mistérios envolto
E assim recomeço o clico
Como sempre tudo de novo.
Sou lunar;
Vivo cheio de emoções
Esplendido é meu ser
Sou turbilhão e explosão
Sou belo sem nem mesmo o ser.

(2011)

Mike Rodrigues

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Anteros


O frio da noite fustiga-me a face
(protejo-me apenas com a brasa de meu cigarro)
É essa lufada o bater de tuas asas
Anteros, meu anjo de ébano.
É a Lua graúda teu espelho de prata,
Teu olho a desvendar-me os segredos.
O frio da madrugada congela as horas em que me encontro,
Me perco.
É esse teu truque para aprisionar-me a alma,
Levar-me a lucidez escuridão adentro,
Silencioso como pássaro noturno à espreita.
O frio prossegue confundindo-se com o negrume,
E eu a chorar por fora,
E eu a nevar por dentro.

(02/09/11)

Mike Rodrigues

sábado, 4 de agosto de 2012

Uva-passa


O tempo passa e me devora,
Me amassa.
Fico áspera como tuas palavras,
Amarga como tua face.
O correr dos dias asfixia meus pulmões.
Acendo um cigarro para matar o tempo,
Passar a vida.
Assisto indiferente, alheia, à vida que levo,
Relevo.
Infértil e inculta me torno.
O que me resta infelizmente,
É arrumar um gato
E me transformar na louca.

Matilda de Azevedo